"O mais pequeno aqui de casa chegou-se a mim com embaraço. Olhou-me. E, de voz solene, disse-me que, depois de puxar pela cabeça, ia peguntar à Lara se gostava dele. Sorri-lhe... com ternura. Antes que lhe respondesse, perguntou-me se eu achava que faria bem. Disse-lhe, convictamente, que sim.
-Pois - respondeu-me - mas tenho medo!
(Medo de que ela não goste de ti? Medo de que, afinal, não sejas um Príncipe das Marés?... "Contas de cabeça" ao alcance de qualquer pai atingido por um vírus de condescendência, já se vê...)
-Tenho medo de não ter coragem de lhe dizer... que gosto dela!...
(Como os medos são mais pequeninos quando não se imaginam, pensei para mim...)
-Se eu fosse a ti... ainda assim... dizia-lhe!
-Porquê?
(Ora aí está uma pegunta que se dispensava quando um pai está a mostrar-se com uma experiência de fazer inveja, sobretudo, quando se trata de falar num "tu cá, tu lá" sobre namoradas... com um filho de oito anos... Claro!...)
-Porque dói menos ficares desiludido ou triste do que ficares a imaginar a vida toda que ela gostava de ti sem nunca saberes a resposta!
( -Não estou a sair-me nada mal, dizia para mim, não cabendo na vaidade, quando...)
-Quando tinhas a minha idade também disseste isso às tuas amigas?
...(Há coisas que não se perguntam a um pai!...)
-Não! Mas se queres saber, estou arrependido...
(É... tudo fica mais simples quando somos verdadeiros...)
-Ensinaram-te isso na faculdade?
(Terceira pergunta que se dispensava...)
-Não. Na minha escola não se ensina a namorar. Infelizmente...
(Olhou-me de surpresa... E eu... também. Não é que quando deixamos de ser paternalistas ficamos mais inteligentes?...)
-É complicado imaginares que eu possa saber coisas que nunca me ensinaram, não é?
(Disse-me que sim...)
-Nós também aprendemos com aquilo que não fomos capazes de fazer. Mas aprender a olhar para trás faz doer o pescoço. Palavra de pai, é mais divertido olhar para a frente... e aprender quase sem querer...
-É por isso que tu achas que eu devia perguntar à Lara se gosta de mim...
(Disse-lhe que sim. Mas não fiquei muito certo de que ele tenha percebido bem tudo aquilo que lhe quis dizer... Mas poupou-me a mais perguntas. Fico a dever-lhe esse alívio... Quanto a mim - porque não me falou disso no dia a seguir, embora tenha notado que estava muito contente - tenho esperança de lhe ter ensinado que a melhor forma de ficar preso a um medo é fugir dele.)
Ah - é claro - e tenho a esperança de ele ter evitado ficar preso a uma Lara idealizada que se passeie pela sua cabeça.
Um dia, o mais pequeno cá de casa irá perceber que gostar de alguém em segredo é (simplesmente) idealizar; desejar que uma ideia venha até nós sem fazermos nada para ir ao encontro. Um dia irá perceber que idealizar é dizer adeus sem dar por isso."
Not... é de uma menina de nome Ana Quinta
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